25 fevereiro, 2012

Capítulo 6: 1951 a 1960 - Contestação a Lisboa; a "dobradinha" (Parte I)

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FCPorto – Dragões de Azul Forte
Retalhos da história, conquistas e vitórias memoráveis, figuras e glórias do
F. C. do Porto


Capítulo 6: 1951 a 1960 – Contestação a Lisboa; a “dobradinha” (Parte I)

Época 1950-1951

Volta a Portugal em Bicicleta
13 Ago.1950 – Ponto final na XV Volta a Portugal em Bicicleta. Vencedor: Dias dos Santos (FCP), pela segunda vez consecutiva; FC Porto, 1.º por equipas, seguido do Benfica e do Sporting.
Dias dos Santos percorreu os 2859 quilómetros do percurso em 92H.46M.40S. O segundo classificado foi Mário Fazzio (Sporting) e o terceiro Moreira de Sá (FC Porto).

Êxitos no ciclismo do FC Porto
A década de 50 foi de sucesso para o ciclismo do clube em participações na Volta a Portugal. Durante esse período, o FC Porto foi 4 vezes vencedor individual (1950, 1952, 1959 e 1960) com Dias dos Santos, Moreira de Sá, Carlos Carvalho e Sousa Cardoso e 5 vezes vencedor colectivo (1950, 1952, 1955, 1958 e 1960).

8 Out.1950 – O austro-húngaro Anton Vogel assumiu o cargo de treinador do FC Porto e logo com uma vitória gorda sobre o Benfica. Reboredo não havia sido feliz e, sem surpresa, foi substituído, embora a equipa estivesse no 2.º lugar do Campeonato desta época.

8 Out.1950 – FC Porto bate o Benfica, na Constituição, por 5-2. Vitória por números que atestam a superioridade portista. Na partida alinhou Araújo que, sob vigilância médica, foi autorizado a dar o seu contributo à equipa. Não se notou o mal de que padecia e saiu como herói renascido, aplaudido pelas bancadas em euforia.
• 15 Out. – A façanha ante o Benfica deu ânimo aos sonhos portistas. Mas, oito dias depois, no Lumiar, derrota, por 1-2. Neste desafio registaram-se lamentáveis incidentes: o quezilento sportinguista Mário Wilson, que logo na primeira parte tivera entrada dura ao estômago de Pinto Vieira, lançando-o três minutos para fora de campo, envolveu-se depois com Ângelo Carvalho a quem pontapeou com violência. O portista reagiu, acabando ambos por ser expulsos.
• 29 Out. – Ao empatar em Braga a um golo, o FC Porto permitiu que o Sporting aumentasse para quatro pontos a sua vantagem.
• 12 Nov.1950 – O líder Sporting goleou o Belenenses, 6-2, mas os escândalos da jornada aconteceram no Campo Grande e na Constituição. O Benfica perdeu, por 2-3, com o Estoril e o FC Porto baqueou diante do Sporting da Covilhã, por 1-2. Com nove jornadas disputadas, os “leões” detinham seis pontos de vantagem sobre o FC Porto, o Atlético e a Académica. O Benfica, em sexto lugar, estava a sete pontos.
• 19 Nov. – O FC Porto perdeu em Setúbal por 3-0 e só se manteve no segundo lugar porque o Atlético, a Académica, o Estoril e o Benfica também ficaram em branco.
• 26 Nov. – O Vitória de Guimarães impôs a primeira derrota ao Sporting. E logo em Lisboa: 2-3. Impressionante: aos seis minutos de jogo os lisboetas já venciam por 2-0. Depois...

26 Nov.1950 / 7 Dez.1950 – Entretanto Anton Vogel era despedido em 26 de Novembro e o húngaro Dezso Gencsy assinou contrato em 7 de Dezembro. Não se percebia bem o porquê de tantas mudanças no comando técnico da equipa portista. Vogel esteve apenas, pasme-se, 49 dias ao serviço do FC Porto (8 de Outubro a 26 de Novembro/1950)…!!!

17 Dez.1950 - À 14.ª jornada o FC Porto continuava a seis pontos do Sporting e a essa distância terminou o ano.
• 1 Jan.1951 – Antevia-se um mês de Janeiro difícil para o FC Porto. Mas começou muito bem goleando o Boavista no Bessa (6-2).
• 7 Jan. – O FC Porto, jogando em “casa”, impôs uma pesada derrota de 7-0 ao Olhanense e reduziu para cinco pontos a desvantagem para o líder.

• 14 Jan. – O FC Porto bateu o Benfica, no Campo Grande, por 2-0, com dois golos de Monteiro da Costa. Gencsy considerou o desfecho histórico. Mas mais exultou Barrigana, como se nesse jogo tivesse chegado à glória como nunca antes: "Tenho tido muitas alegrias, porém como a de hoje, nenhuma. Faltava-me ganhar ao Benfica na sua própria casa." Ted Smith, treinador benfiquista, resignado, disse apenas que ganhara "a melhor equipa".
• 21 Jan. – Na 18.ª jornada do Campeonato, o FC Porto ao superar o Sporting (3-0), no velhinho e acanhado Campo da Constituição, reduziu para três pontos a desvantagem em relação aos "leões". A esperança renascia.
O jogo não se transformou em tragédia porque os deuses não quiseram. Ainda antes de a partida se iniciar, a vedação do campo rebentou sob o impulso da mole humana, um garoto caiu e precipitou-se sem nunca largar a bandeira do seu amado FC Porto. Ficou sob a avalancha, acabando, milagrosamente, por sofrer apenas pequenas escoriações. Pouco depois, outra vedação do alquebrado campo não resistiu à pressão e tombou. Mais quedas, mais escoriações, mas nada de muito grave. A vitória portista também ajudou a esquecer as dores…
• 28 Jan. – Na derrota do FC Porto com o Atlético na Tapadinha, por 1-4, várias escaramuças se registaram, dentro e fora do terreno, resultado ainda da guerra aberta pelo ingresso de Vital, ídolo alcantarense, no Porto. O portista Ângelo Carvalho queixou-se de Ben David: “O avançado do Atlético atirou-se sobre mim e com o piton deixou-me o pé neste estado”. Em muito mau estado... Alfredo bradava contra o árbitro: “aceitar esta derrota torna-se difícil e nem um espírito forte é suficiente para lutar sob a coacção de um árbitro que nos prejudicou imenso”.
• 4 Fev.1951 – O FC Porto, já de esperança desfeita, perdeu em Coimbra (1-0).
• 11 Fev. – A vitória portista na Covilhã (2-1) não impediu que o Sporting fosse já o virtual campeão.
• Mar.1951 – A derrota dos azuis-e-brancos com o Estoril Praia, na condição de visitantes, permitiu que Sporting terminasse o Campeonato com 45 pontos, mais 11 que o FC Porto, mais 15 que o Benfica e o Atlético.
• Receitas – Terminado o Campeonato, as receitas brutas de bilheteira ascenderam a 8148 contos; o FC Porto arrecadou 538 contos, o Sporting 847 e o Benfica 738 contos. O exíguo Campo da Constituição continuava a limitar os ganhos do clube da Invicta. Seria por pouco tempo.

Uma equipa do FC Porto na época 1950-51.
Da esquerda para a direita, em cima: Joaquim Machado, Pinto Vieira, Virgílio, Ângelo Carvalho, Alfredo Pais e Barrigana; em baixo: Sanfins, Nelinho, Monteiro da Costa, José Maria e Carlos Vieira.

Gencsy, Dezso Gencsy (n. Budapeste, 2 Nov.1897 – m. Porto, 8 Abr.1977), futebolista húngaro, iniciou a carreira em “casa”, no Nemzeti de Budapeste. Mudou-se para a Alemanha em 1921, jogando durante três temporadas no FC Saarbrücken e uma na União de Hamburgo. Em 1925 foi para Itália onde jogou pelo Derthona e pelo Génova, antes de se retirar em 1927.
• Tendo abraçado a carreira de treinador, veio para Viana do Castelo treinar o Vianense na época 1934-35. Na temporada seguinte orientou a equipa galega do Desportivo da Corunha. Deixando Espanha, regressou a Portugal e ingressou no FC Porto onde esteve entre Dezembro de 1950 e Junho do ano seguinte. Obteve o 2.º lugar no Campeonato Nacional.
• Gencsy era um excelente xadrezista com a categoria de Mestre. Radicado no Porto, aqui morreu em Abril de 1977.
Carreira no FC Porto
7 Dez.1950 a 17 Jun.1951

• 14 Abr.1951 – O FC Porto apurou-se para os quartos-de-final da Taça de Portugal com uma vitória de 11-1 sobre o Olhanense, no Porto, após um nulo em Olhão.
• 29 Abr. – Nos quartos-de-final o destaque vai para o Belenenses que arredou os portistas da competição. Depois de terem batido o FC Porto nas Salésias, por 2-0, os belenenses resistiram estoicamente no Campo da Constituição, empatando a zero golos.

17 Jun.1951; Jul.1951 – Mais uma “chicotada psicológica”… Dezso Gencsy era despedido em 17 de Junho de 1951. Consequência: em Julho, regressou ao FC Porto o argentino Eladio Vaschetto que por cá já tinha passado e que foi o treinador protagonista da vitória sobre o Arsenal, em Maio de 1948, sendo por isso carinhosamente apelidado de “homem do Arsenal”. (Ver biografia de Vaschetto em http://bibo-porto-carago.blogspot.com/2011/11/capitulo-5-1941-1950-o-centralismo-da.html)

26 Jun.1951 – Momento de grande simbolismo para atletas e adeptos: lançada a semente da relva do Estádio das Antas.

27 Jul.1951 – O Dr. Urgel Horta sucede a Ribeiro Campos na presidência do FC Porto e vai ficar à frente dos destinos do Clube até ao ano de 1954. Já tinha exercido o cargo entre 1928 e 1929.

Dr. Urgel Júlio Horta (n. Felgar, Moncorvo, 17 Jun.1896 – m. 1971), formado em medicina pela Universidade do Porto, especializou-se em oftalmologia, em Paris, e é autor de várias obras literárias. Foi presidente do FC Porto por duas vezes: em 1928-1929 e em 1951-1954.
• Em 13 de Março de 1928, no seu primeiro mandato, ao FC Porto é atribuído o estatuto de Instituição de Utilidade Pública. Coube-lhe a contratação do treinador Yozhef Szabo que revolucionou o futebol do Clube e do País.
• Durante o seu segundo mandato é inaugurado o Estádio das Antas, "casa" portista durante 52 anos. Se Cesário Bonito ideou e fez arrancar o projecto das Antas, Urgel Horta foi o presidente da obra feita. Um presidente de palavra que, com o clube a atravessar uma grave crise financeira e com as obras do estádio a meio, prometeu resolver os problemas maiores e prosseguir com o projecto das Antas. E cumpriu. Um homem de palavra!
• Como Presidente teve o privilégio de assistir à conquista pelo FC Porto do primeiro Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, em duas modalidades: Hóquei em Campo (1951-52) e Basquetebol (1951-52). No basquete o FC Porto venceu o Campeonato pela segunda vez consecutiva na época 1952-53.
Em 1952 o FC Porto sagrou-se, finalmente, Campeão Nacional de Atletismo por equipas (ar livre). Foi uma vitória brilhante, fruto do trabalho soberbo que a secção desenvolvia no Clube. Em Setembro do mesmo ano foi inaugurada a pista de atletismo, em cinza, no Estádio das Antas.
Ainda em Set.1952, o portista Moreira de Sá venceu a XVII Volta a Portugal em Bicicleta. Em Andebol de 11, o FC Porto revalidou, em 1953-54, o título de Campeão Nacional, sendo o Tri do Presidente.
No futebol, apesar do arredo de conquistas, Urgel Horta não deixou que se desfalecesse e preparou o Clube para o futuro. Fez ingressar na equipa três africanos, Albasini (médio), Carlos Duarte e Fernando Perdigão (avançados), e foi buscar António Teixeira (avançado), que brilhara no Vitória de Guimarães. Em finais de 1952 conseguiu que Pedroto (médio) também viesse, protagonizando a maior transferência do futebol português até então. Futebolistas que iriam revelar-se de utilidade inegável, contribuindo para a retoma de títulos e conquistas sublimes.
• O Dr. Urgel Horta “tinha um profundo orgulho na cidade do Porto e na sua evolução, um cenário onde se integrava totalmente o FC Porto. Se há coisa que ele fez, foi dar sempre tudo em prol do clube”. Homem do regime foi deputado à Assembleia Nacional.
• Urgel Horta, o homem, o presidente, a quem o FC Porto muito deve.

Ângelo Carvalho – Ângelo Ferreira de Carvalho (n. 3 Ago.1925 – m. 8 Out.2008), defesa-esquerdo de uma grande entrega e eficácia, proveio da escola de jogadores e, como senior, vestiu a camisola do FC Porto durante 11 épocas.
• Temperamental, era um jogador dinâmico, ousado, destemido e com qualidades técnicas suficientes para singrar em qualquer equipa portuguesa.
• Começou a impor-se na turma portista sobretudo a partir da época de 1947-48. O aguerrido defesa, oriundo de uma família de 23 (!) irmãos (12 tinham morrido entretanto), participou em 20-10-1947 na espectacular vitória (1-0) do FC Porto sobre o Valência, campeão de Espanha, no seu próprio terreno. Foi uma das grandes figuras da equipa e nesse jogo, inesquecível para si, Ângelo Carvalho viveu para além do prazer de uma grande tarde, incidente insólito: um espectador atirou-lhe uma garrafa à cabeça, ferindo-o ligeiramente. Ele pegou no projéctil e queixou-se ao árbitro, Pedro Escartin, que lhe pediu “desculpa como espanhol”. Depois, suspendendo o jogo, Escartin dirigiu-se a um polícia, apontou o espectador e intimidou o agente da autoridade: “Prenda-o à minha ordem”. E o agressor preso ficou...
• Ângelo Carvalho chegou a “capitão” da equipa portista e da Selecção Nacional pela qual fez 15 jogos. Estreou-se pela Selecção em 9 Abr.1950, em Lisboa, frente à Espanha (2-2) em jogo da qualificação para o Mundial/1950. Fez o seu último encontro com a “camisola das quinas” no Estádio das Antas, em 22 Mai.1955, com uma saborosa vitória por 3-1 ante a fortíssima Inglaterra. Alinhou ao lado de Pedroto (FC Porto), Matateu (Belenenses), Travassos (Sporting) e José Águas (Benfica). Para se aquilatar da valia do defesa portista, diga-se que, entre todos os jogadores que alinharam naquela partida, era de longe (com 15 jogos) o mais internacional a seguir a Travassos. No início foi uma revelação, depois tornou-se imprescindível e acabou como insubstituível, embora Yustrich…
• Com a chegada de Yustrich ao FC Porto, foi relegado para o Salgueiros antes do início da época 1955-56, com Barrigana e Porcel. Mais tarde, regressou ao FC Porto como impulsionador do “Departamento de Veteranos".
• O “mítico” Ângelo Carvalho foi uma figura distinta do FC Porto e do futebol português. Uma glória do Clube!
Carreira no FC Porto
1943-44 a 1954-55
Palmarés
4 Campeonatos do Porto
[Fontes: várias, incl. fcporto.blogspot.com]

A honra do Clube nas mãos dos andebolistas
O FC Porto, ao bater o Sporting por 3-1, venceu, mais uma vez, o Campeonato Nacional de Andebol de 11. Neste ciclo era o terceiro título consecutivo, o Tri.



  • No próximo post.: Capítulo 6, 1951 a 1960 – Contestação a Lisboa; a “dobradinha” (Parte II) – Época 1951-52; Campeonato Nacional; a demolição do Palácio de Cristal; II Cortejo de Materiais com vista à construção do novo estádio.

5 comentários:

  1. Bom post, na entrada da década de 50 aquela que nos trará, de novo, os títulos. Não é verdade?

    Urgel Horta, um grande Presidente; Ângelo Carvalho o mítico atleta que encarnava a alma de Dragão.

    Beijinhos.
    E bIBÓ PORTO!!!‎

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  2. Mais uma página de referência, num dia que correu muito bem.

    Abraço

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  3. Com a moral novamente em alta, depois dos mouros perderem pontos em seniores e juniores... damos de caras com mais este trabalho que ajuda a por a cereja no cimo, que mais logo vamos alcançar, na chegada ao topo da classificação!
    Deste trabalho tudo está atraente e perfeito. Como merece chegar a ficar perpetuado em livro, como isto deverá ficar atraente quando impresso!
    Abraço.

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  4. Mesmo em tempos de "vacas magras" já espetávamos 5 aos mouros! Mesmo com o centralismo exacerbado, mesmo com o despotismo no auge.

    A História que não se escreve (transcreve-se, divulga-se), repete-se ainda que com nuances.

    Abraço.

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  5. Justíssimo o grande destaque a Dias dos Santos e a sua vitória na volta a Portugal em bicicleta com as nossas cores.

    Um grande trabalho, marca de qualidade.

    abraço

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